Macroeconomia: como a taxa Selic afeta seus investimentos?

Sabemos que 2021 foi um ano de muita turbulência tanto no mercado financeiro quanto no “mundo real”, com a pandemia matando muita gente e o desemprego batendo à porta de grande parte do nosso povo. 

Do lado da bolsa de valores, o ano foi de altos e baixos, com recorde de 130 mil pontos no Ibovespa e uma forte queda em seguida, que levou o índice para o patamar dos 100 mil pontos.

Já o Ifix (índice dos fundos imobiliários) teve oscilação menor, como de costume, fechando em queda de 2,29% no ano passado.

Porém, quem investiu nesse mercado enfrentou fortes emoções. Desde março, o Ifix caiu mais de 12% até o fim de novembro. A partir de então, o índice se recuperou com uma alta de cerca de 10%.

Toda essa movimentação aconteceu por causa de um fator chave que é fundamental no processo de precificação dos ativos: o aumento da taxa de juros (Selic).

Vamos ver um pouco como isso funciona.

Qual a relação entre juros e renda variável?

No mercado financeiro, os agentes econômicos ficam vidrados na taxa de juros do governo, pois esse item afeta a economia e a precificação dos ativos de várias formas.

De grosso modo, os juros indicam o custo do capital, também chamado de custo de oportunidade do investimento

Os títulos do governo são considerados ativos livres de risco (ao menos para o investidor nacional). Se a remuneração desses ativos aumentam, então as outras aplicações deverão elevar seus rendimentos para se tornarem vantajosos. Isso porque ações e fundos imobiliários, por exemplo, são mais arriscados do que o Tesouro Direto.

Considerando que os gestores dos fundos e das empresas não têm como aumentar seus lucros de uma hora pra outra e pagar mais aos cotistas, o mercado faz esse ajuste através dos preços dos ativos. 

Resumindo: com o aumento dos juros, os investidores passam a exigir preços menores das ações e FIIs para adquirir esses ativos, o que faz com que o dividend yield aumente.

Com isso em mente, é fácil perceber de onde vem parte das oscilações do mercado de capitais. Os agentes econômicos ficam a todo momento tentando se antecipar aos movimentos dos juros e dos ativos em geral.

Todo mundo se esforça para descobrir o valor que o Banco Central irá levar a Selic nas próximas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária).

Se as expectativas apontam para um aumento da Selic, então o mercado começa a precificar os ativos diminuindo seus preços. Como resultado, muitos investidores vendem ações e FIIs e correm para a renda fixa.

O contrário ocorre se as expectativas são de queda dos juros. Neste caso, há uma corrida para a renda variável na busca de maiores ganhos.

Essa relação é fácil de perceber apenas olhando os gráficos do Ifix e Ibovespa e o comportamento das expectativas da Selic. Caso queira uma explicação mais científica e robusta, há um artigo que testa essa relação, o qual pode ser acessado neste link.

Repare como o Ifix caiu no ano passado quando as expectativas apontaram para uma Selic maior no futuro:

  • a) Ifix caiu:
  • b) Ibovespa caiu:
  • c) Expectativas de Selic para 2021 e 2022 subiram:

Repare também que o Ifix e Ibovespa voltaram a subir no fim de dezembro de 2021, quando as expectativas se estabilizaram e o mercado passou a enxergar possibilidades de um aumento menor dos juros em 2022.

Tendo entendido a relação entre renda variável (FIIs e ações) e a Selic, o próximo passo é entendermos o que determina os juros e suas as expectativas.

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O que faz a Selic subir ou cair?

A Selic é um instrumento de política monetária usado pelo Banco Central do Brasil para controlar a atividade econômica e a inflação.

Por ser a taxa básica que remunera os títulos públicos do governo, a Selic tem o poder de afetar a quantidade de crédito e a demanda da economia.

Segundo a literatura econômica tradicional (também chamada de ortodoxa, ou mainstream), a inflação surge quando a demanda da economia é maior do que a quantidade de oferta de produtos e serviços. 

* Há críticas quanto a essa interpretação, mas não discutirei isso neste artigo.

Logo, quando a inflação está muito elevada, acima da meta traçada pelo Banco Central, é de se esperar que a autoridade monetária aumente a Selic para contrair a demanda do sistema e, consequentemente, tentar trazer os preços de volta ao normal.

O contrário ocorre quando a economia está com inflação baixa demais (ou mesmo deflação, que é quando os preços caem). Isso é um sinal de recessão, o que resulta em atividade fraca e desemprego elevado.

Para resolver o problema, o Banco Central reduz a Selic para restaurar a demanda e evitar excesso de oferta (foi isso que fizeram no início da pandemia. A Selic foi a 2%).

Portanto, podemos resumir que há dois fatores básicos que determinam a alta ou baixa dos juros: inflação e atividade econômica.

A atividade econômica é medida pelo PIB (Produto Interno Bruto), cujo índice é divulgado trimestralmente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Há também o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), índice divulgado mensalmente pelo Banco Central e que serve como prévia do PIB.

a inflação é mensurada pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que também é feito pelo IBGE e divulgado mensalmente.

No geral, os investidores do mercado ficam constantemente olhando esses indicadores.

Quando a inflação ou PIB vêm com resultados acima do esperado, muitos agentes acendem o alerta e ficam com receio de que o Banco Central possa aumentar a Selic. Como consequência, a bolsa cai.

Já quando o PIB e/ou a inflação vêm fraco, o mercado fica animado, pois há a expectativa de que a Selic poderá cair para acomodar a pressão recessiva.

É por isso que nem sempre a bolsa de valores acompanha a economia. Ou seja, é muito provável que a bolsa suba quando a economia esteja caindo, e vice-versa. 

Isso é contra intuitivo à primeira vista, mas faz todo sentido quando analisamos pela perspectiva das expectativas sobre o futuro dos juros.

Há inclusive economistas que dizem que “a boa notícia para os mercados é que a economia está mal”. Essa dicotomia ocorre porque o desemprego e recessão jogam a inflação para baixo e causam a necessidade do governo gerar estímulos monetários para botar a coisa em ordem.

Agora você já deve ter uma noção da importância de ficar atento às variáveis macroeconômicas (inflação e PIB), seus respectivos impactos nas expectativas do mercado e a reação do Banco Central.

No próximo artigo mostrarei quais as perspectivas atuais dos agentes em relação ao futuro da Selic e como o Banco Central tem enxergado o contexto econômico.

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Publicado por Tales Rabelo Freitas

Doutor em Desenvolvimento Econômico da UFRGS, Mestre em Teoria Econômica pela UFES e Graduado em Ciências Econômicas pela UFSJ. Realizo pesquisas sobre economia institucional, macroeconomia, mercado financeiro, economia brasileira e desenvolvimento econômico.

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